terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Eu e Barack Obama

Hoje assisti à posse de Barack Obama. E senti uma forte emoção. É um mistério o que acontece em certos casos. Um presidente de país estrangeiro que toma posse e um cidadão que em tese pouco tem a ver com o fato, chora.
Será mesmo que pouco tem a ver?
Na minha infância pobre, num subúrbio de Belo Horizonte, nas primeiras letras, fui alimentado com leite doado por um programa chamado Aliança Para o Progresso. Meu avô, velho meeiro de fazenda que mal sabia ler, me esclareceu dizendo que aquele leite era doado por um país chamado Estados Unidos. E também me disse que era um leite especial, forte, para que as crianças do Brasil crescessem robustas e inteligentes.
Na minha fome própria da juventude eu adorava aquele leite.
Depois, tentaram me convencer de que aquele leite tinha outra finalidade. Era uma forma de dominação. Uma maneira de marcar a presença americana nas mentes inocentes das crianças. Os mais radicais chegaram a me dizer que aquele leite continha uma substância secreta destinada a tornar a juventude brasileira obediente e resignada.
Era muito tarde. Eu já estava fisgado pelo ideal americano.
Da conquista daquele oeste bravio tomei conhecimento através dos filmes de caubói. Aquela terra vermelha do Arizona. Pioneiros que chegavam a lugares remotos, a família inteira, o chefe, a mulher e as crianças. E cortavam árvores para fazer toras. E construíam suas casas. E plantavam ao redor da casa as coisas de subsistência. E tinham animais de estimação. E eram felizes por pertencerem a uma grande nação.
De lá prá cá vi muitas coisas daquele povo.
Conheci Thomas Jefferson e George Washington, Abrahão Lincoln e Dwight Eisenhower, George S. Patton e Douglas Mac Arthur, George Washington Carver e Martin Luther King. Poucas nações geraram tantos grande homens. E sempre acreditei que a razão disso é o orgulho do ideal americano. Nascer num país assim, que cultiva o objetivo de ser o maior, deve realmente produzir algo de grandioso dentro de cada criança.
E agora conheci Barack Obama. Uma voz forte num corpo franzino. Um currículo revelador de sua inteligência. Um sorriso de triunfo. Barack Obama parece querer expressar o tempo inteiro que em nenhum outro lugar ele teria chegado onde chegou.
Hoje, dia da posse, lá estava ele.
Vencedor.
Visto e ouvido pelo mundo inteiro. Ovacionado por seus compatriotas.
Lá estava ele. Barack Obama.
Todos os pais e todos os professores do mundo inteiro deveriam hoje ter levado seus pupilos para a frente da TV. E alí poderiam ter dado uma aula sobre as possibilidades que aguardam os que estudam e se esforçam.
Barack Obama, espero que Você realmente possa fazer um governo universal, porque essa feição cosmopolita Você já tem.
Pena que eu sinta grande inquietação a respeito de ti, da tua segurança...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Tentando desvendar o mistério da fé

Ao longo da vida sempre verifiquei que minha fé era algo inexistente. A todo instante em que o assunto religião era tratado minha impressão era de que acreditar naquelas coisas era difícil. Mas leiam o texto do Reinaldo, cujo nome completo cometi o imperdoável erro de esquecer. Hei de buscar na Rede e dar-lhe o devido crédito.

"A história e os elementos que a circundam são exemplos claros do mistério que circunda a experiência religiosa. Quando se observa a fé – qualquer fé – com os óculos frios e racionais do dia-a-dia, é impressionante a quantidade de paradoxos nos quais ela nos pede para acreditar. Imaginar um homem que também é Deus, mas que de alguma maneira se despiu dessa divindade para experimentar a morte e o próprio inferno, é um feito cognitivo que sobrecarrega o nosso cérebro normalmente tão poderoso.


Ao mesmo tempo, a religião pode sofrer o impacto de decisões inteiramente racionais, discutidas em debates e ratificadas em documentos, como a própria mudança de “infernos” para “mansão dos mortos” – feita, é claro, para evitar interpretações indesejadas. O que, no fundo, essa contradição quer dizer, e por que parecemos tão dispostos a conviver com ela? Existe algum jeito de examinar a religião como fazemos com qualquer outro fenômeno humano – como algo derivado, em última instância, da química dos nossos cérebros e de bilhões de anos de evolução?

A resposta, por enquanto, é que os pesquisadores estão começando a avançar nesse tipo de análise. Usando as ferramentas da biologia evolutiva e da neurociência, alguns deles avaliam que a fé pode ser uma conseqüência inevitável de como as nossas mentes funcionam, ainda que ela pareça ter pouco a ver com os eventos do cotidiano.

Detectores hiperativos
Uma das idéias mais interessantes a emergir nessa nova área de estudo atende pelo nome de HADD (sigla inglesa de “aparelho hiperativo de detecção de agente). Complicado, eu sei, mas menos do que parece. Qualquer criatura que (como nós ou a imensa maioria dos outros animais) precisa se mexer para lá e para cá no mundo, em busca de comida e parceiros ou fugindo de predadores, precisa de um tipo especial de detector, capaz de flagrar outros agentes, ou seja, seres que, como nós, também agem no mundo.

Grosso modo, esse detector é essencial porque, sem ele, um animal corre o risco de surtar desnecessariamente toda vez que sente um vento mais forte ou escuta uma jaca cair da jaqueira, achando que se trata de um predador, por exemplo. E sair correndo à toa por causa dessas coisas bobas é um gasto de energia que poderia ser prejudicial, ou até fatal, quando o lobo de verdade der as caras.

Ainda não se sabe com certeza se o aparelho de detecção de agente e uma outra propriedade dos nossos cérebros, a chamada teoria da mente, são a mesma coisa. Minha impressão é que a segunda é um desdobramento do primeiro. Dá-se o nome de teoria da mente à capacidade de atribuir não apenas “agência”, ou seja, a capacidade de ser uma criatura agente, mas também uma mente como a nossa a outros seres mundo afora.

De novo, trata-se de algo extremamente útil. É a teoria da mente que nos permite traçar raciocínios como a daquela canção da Marisa Monte: eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que eu sei. Ao atribuir intenções, desejos e planos a outras pessoas, nós automaticamente ganhamos uma chance de imaginar o que elas estão pensando (ou o que elas estão pensando sobre o que elas acham que nós estamos pensando...) – e, assim, responder à altura. Nossa vida social e intelectual jamais seria tão complicada e construtiva sem isso.

No entanto, como diz o ditado, seguro morreu de velho. Num mundo que não compreendemos totalmente (aliás, no passado remoto, compreendíamos muito menos do que hoje), muitas vezes nos parece seguro e até útil julgar coisas que não são agentes nem possuem mentes com as ferramentas da detecção de agência e da teoria da mente – daí o “hiperativo” da sigla HADD. Não é de admirar, portanto, a tendência humana para ver personalidade (“pessoalidade” seria uma palavra melhor e, acredite, também existe) em seres inanimados ou em fenômenos da natureza. E não é preciso muito para sofisticar um pouco mais esse raciocínio e passar a acreditar que uma tempestade e um terremoto não são agentes em si, mas sim os deuses da tempestade e do terremoto que estão por trás dos fenômenos.

Dessa forma, a religião seria “uma família de fenômenos cognitivos que envolvem o uso extraordinário de processos cognitivos comuns”, como escreve o antropólogo americano Scott Atran. Um experimento com crianças parece sugerir que isso é mesmo verdade, além de tocar num dos pontos mais importantes da religião – a crença em alguma forma de vida após a morte.

Os psicólogos americanos Jesse Bering e David Bjorklund usaram um teatrinho de fantoches, no qual um camundongo se perde e é comido por um jacaré. Depois, perguntaram a crianças com idades entre quatro e 12 anos como era para o roedor estar morto. Ele ainda tinha fome? Sentia sono? Queria ir para casa? A maioria delas respondeu que o bichinho não precisava mais comer, mas também que ele ainda pensava, amava sua mãe e gostava de queijo. Para Bering, a interpretação mais provável para os dados é que, aplicando a boa e velha teoria da mente para entender a situação do camundongo, as crianças simplesmente não conseguiam conceber a própria não-existência – e, portanto, também não conseguiam fazer o mesmo com o roedor.

É claro que ainda existem muitas peças do quebra-cabeça da fé que precisam entrar no lugar certo, se a ciência quiser entender de fato os fenômenos religiosos. A idéia de que a crença é apenas um subproduto da estrutura das nossas mentes, mera conseqüência de outros fatores que foram importantes para a nossa sobrevivência como espécie, pode ser só parte da história.

A fé poderia ter nascido como um subproduto e depois ter sido reforçada – abraçando conceitos éticos e de solidariedade entre fiéis, por exemplo, que dariam uma força impressionante aos mais religiosos durante a luta pela sobrevivência. Nesse caso, a evolução cultural teria se misturado à evolução biológica num coquetel poderoso, fazendo com que pessoas e sociedades dotadas de fé superassem as que não usavam essa arma e deixassem mais descendentes – até gerar um mundo em que a religião é um elemento quase onipresente, como o nosso.

As pessoas de fé podem temer que esse tipo de investigação seja um empreendimento de ateus empedernidos, loucos para esmagar a religião com as forças da ciência. Será que revelar as bases neurológicas e evolutivas da crença em Deus equivaleria a revelar os truques de um mágico – de forma que seria impossível acreditar nos poderes sobrenaturais depois de ver o fundo falso da cartola?

Creio, com toda a sinceridade, que esse não é o caso. A ciência pode entender como a fé se desenvolve, mas a base e o sentido que ela dá à existência humana estão fora do alcance dos laboratórios. Se é possível acreditar que Deus guiou o processo complicado e fascinante que nos tornou humanos, também é legítimo imaginar que a arquitetura da nossa mente anseia pela fé porque Deus quer ser conhecido. Não há nada de desrespeitoso em tentar entender esse processo. Como o próprio Jesus disse, “Conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará”. "

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Matéria Prima Para Fazer Um País

A crença geral anterior era de que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier depois de Lula também não servirá para nada.

Por isso estou começando a suspeitar que o problema não está no suposto ladrão ou corrupto que teria sido Collor, ou na farsa que é o Lula. O problema está em nós. Nós como povo.

Nós como matéria prima de um país. Porque pertencemos a um país onde a esperteza é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família, baseada em valores e respeito aos demais.

Pertencemos a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nas calçadas onde se paga por um só jornal E SE RETIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertencemos ao país onde as empresas em que trabalhamos são papelarias particulares de seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos ...e para eles mesmos.

Pertencemos a um país onde nos sentimos o máximo porque conseguimos "puxar" a tevê a cabo do vizinho, onde a gente frauda a declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos impostos.

Pertencemos a um país onde a impontualidade é um hábito. Onde os diretores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas fazem "gatos" para roubar luz e água e nos queixamos de como esses serviços estão caros.

Onde não existe a cultura pela leitura (exemplo maior nosso atual Presidente, que recentemente falou que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem econômica.

Onde nossos congressistas trabalham dois dias por semana para aprovar projetos e leis que só servem para afundar ao que não tem, encher o saco ao que tem pouco e beneficiar só a alguns.

Pertencemos a um país onde as carteiras de motorista e os certificados médicos podem ser comprados, sem fazer nenhum exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar o lugar.

Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o pedestre. Um país onde fazemos um monte de coisa errada, mas nos esbaldamos em criticar nossos governantes.

Quanto mais analiso os defeitos do Fernando Henrique e do Lula, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem molhei a mão de um guarda de trânsito para não ser multado.

Quanto mais digo o quanto o Dirceu é culpado, melhor sou eu como brasileiro , apesar de ainda hoje de manhã passei para trás um cliente através de uma fraude, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.

Não. Não. Não. Já basta.

Como "Matéria Prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas nos falta muito para sermos os homens e mulheres que nosso país precisa.

Esses efeitos, essa esperteza brasileira congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos de escândalo, essa falta de qualidade humana, mais do que Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são brasileiros como nós, eleitos por nós.

Nascidos aqui, não em outra parte... Me entristeço. Porque, ainda que Lula renunciasse hoje mesmo, o próximo presidente que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.

E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém o possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.

Nem serviu Collor, nem serviu Itamar, não serviu Fernando Henrique, e nem serve Lula, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa.

E enquanto essa outra coisa não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente sacaneados!!!

É muito gostoso ser brasileiro. Mas quando essa brasilinidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, aí a coisa muda... Não esperemos acender uma vela a todos os Santos, a ver se nos mandam um Messias.

Nós temos que mudar, um novo governador com os mesmos brasileiros não poderá fazer nada. Está muito claro...... Somos nós os que temos que mudar.

Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda nos acontecendo; desculpamos a mediocridade mediante programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso.

É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de surdo, de desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa?....

MEDITE!!!!!

Não é de minha autoria/Não sei quem é o autor/Peguei na Rede...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Paulo Barros e a Saga de Viradouro no Reino de Moisés

A Imprensa divulgou que foi a Federação Israelita a entidade que se sentiu no direito de ter sido consultada sobre a oportunidade de a Escola de Samba Unidos do Viradouro apresentar uma alegoria alusiva ao chamado holocausto.

E, tendo recorrido à Justiça, obteve desta o veto que mutilou o conjunto criado por um artista.

Foi uma lamentável atitude cuja arrogância só foi aceita e facilmente compreendida por dois motivos principais:

O brasileiro é um povo que, historicamente, se submete e a influência judaica é incontestavelmente forte.

Com freqüência pesquiso e cada vez mais me surpreendo com o horror do chamado holocausto. Em bancos de dados de imagem, a nível mundial, é possível acessar fotos desse monstruoso evento e é impossível não se surpreender.

Todas as pessoas, no mundo inteiro, que viessem a assistir o desfile principal das escolas de samba do Rio de Janeiro, ao ver passar a Viradouro, se surpreenderiam com aquela alegoria. Garanto que não se arrepiariam apenas, como sugeria o enredo; mas sentiriam seus corações apertados. Talvez, quem estivesse cantando, até parasse um pouco. Arrisco a possibilidade de comentários posteriores em família. Comentários que certamente seriam de simpatia para com o povo que teve por destino viver aquele sacrifício, agora lembrado.

Ao cercear o direito do artista mostrar sua obra, A Federação Israelita prestou um desserviço à causa da divulgação do morticínio de judeus, praticado na Alemanha de Adolf Hitler. Trata-se de assunto que não deve ser escondido nem esquecido.

Tratou-se, portanto, de uma querela equivocada que, de um lado entristeceu um artista e humilhou uma comunidade, além de me ter negado o direito de assistir ao desfile, completo, conforme idealizado por seus legítimos autores, e de outro gerou resultados positivos apenas na aparência para uma entidade que em seu próprio nome ostenta sua origem estrangeira, visto que Israel não é Brasil.

É claro que cada assunto pode ser visto por ângulos diversos. No caso em questão, há razões políticas e históricas antigas e razões práticas atuais. Um caso desses não se esgota apenas com o protesto de uma entidade e uma sentença judicial.

Consola saber que tais iniciativas são obra de sectários intransigentes que, infelizmente, há em qualquer povo. O que se lamenta é que atitudes assim podem fazer com que se passe a crer que ‘os judeus são maus’, ‘os judeus são fortes’, os judeus podem proibir’, ‘os judeus são poderosos’ e outras mitificações que ao longo da história surgiram e não fizeram nenhum bem.

O Problema das Virgens

Outro dia lia o "Carta a uma Nação Cristã" do filósofo ateu Sam Harris. É um livro fininho de leitura agradável, companhia perfeita para se ter na mochila quando se vai para o aeroporto para mais uma ponte aérea; você começa a ler logo após o check-in, faz uma pausa para trocar o protocolar "bom dia" com as comissárias de bordo que te esperam na porta do avião com o melhor sorriso que elas conseguem fazer àquela hora da manhã, outra pausa mais tarde para recusar a barrinha de cereal ou o biscoito de gordura trans, e antes do avião pousar você já terminou.

Então deve ter sido quase na hora da aterrissagem, já chegando ao final do livro, que mais uma vez vi mencionada aquela história de que os terroristas muçulmanos que seqüestraram os aviões no dia 11 de setembro acreditavam que, em troca de seu martírio, seriam recompensados no paraíso com um séquito de 72 virgens. Só que desta vez eu parei para pensar um pouco mais no lado, digamos, prático, deste assunto.

Supondo que a religião islâmica realmente assegure 72 virgens aos que morrem em nome de Alah, será que esta graça está reservada aos mártires ou é estendida a todos os fiéis que adentram o paraíso? E de onde vêm 72 mulheres virgens para cada homem do reino dos céus? São as almas das mulheres que morreram imaculadas que vão ao céu servir os mártires? Se não, o que reserva o céu às mulheres mártires? maridos perfeitos que nunca se esquecem de levantar a tampa da privada? Pensando em todas estas questões decidi pesquisar um pouco mais sobre o paraíso islâmico.

Comecei pelo Alcorão. O livro máximo da religião islâmica não deixa dúvidas de que o paraíso islâmico é um lugar bastante sensual, mas nada é dito sobre a quantidade de virgens que aguarda os eleitos.

"E se deitarão sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris [virgens] de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito. (...) Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos."

Alcorão, surata 56, versículos 12-40.
(todas as traduções deste texto foram feitas a partir do inglês)

São inúmeras as passagens como esta que mencionam a existência no paraíso de jóias, criados jovens e cheirosos, vinho (uma extravagância, já que o islã proíbe consumir bebidas alcoólicas em vida), rios de leite, rios de mel, rios de água (que costuma ser coisa preciosa nos países muçulmanos), frutas abundantes e moçoilas virgens para fazer "companhia" aos justos... Comparado ao paraíso cristão, com seus anjos assexuados de aparência andrógina tocando harpa e entoando cânticos (quando não estão em missão para destruir alguma cidade ou coisa assim), o céu islâmico parece o Club Med dos paraísos.

Só que diferentemente da Bíblia, que é a única fonte autenticada pela Igreja das palavras de Deus, na religião islâmica o Alcorão é complementado pelos hadiths, uma coletânea de histórias sobre tudo o que supostamente disse ou fez o profeta Maomé durante sua vida, que circularam no boca a boca por mais de um século até serem redigidas em sua forma atual. É aí, nessa barafunda de textos, às vezes antagônicos, que vamos encontrar mais detalhes sobre o paraíso islâmico, incluindo o número de virgens com que os eleitos são agraciados:

"A menor recompensa para aqueles que se encontram no paraíso é um átrio com 80.000 servos e 72 esposas, sobre o qual repousa um domo decorado com pérolas, aquamarinas e rubis, tão largo quanto a distância entre Al-Jabiyyah (hoje na cidade de Damasco) e Sana'a (hoje o Iemem)"

Hadith 2687 (Livro de Sunan, volume IV).

Se esta é a menor recompensa que aguarda os felizardos no paraíso, então é certo que os servos e as virgens não foram parar lá por mérito. Quem sabe fossem candidatos ao inferno (não dizem que "é melhor reinar no inferno que servir no paraíso"?). No caso das virgens isto faria todo o sentido, já que a rotina delas no céu não é moleza; sobre isso escreveu Al-Suyuti, um renomado comentador do Alcorão e estudioso dos hadith, no século XV:

"Cada vez que se dorme com uma huri descobre-se que ela continua virgem. Além disso o pênis dos eleitos nunca amolece. A ereção é eterna. A sensação que se sente cada vez que se faz amor é mais do que deliciosa e se você a experimentasse neste mundo você desmaiaria. Cada escolhido se casa com setenta huris, além das mulheres com que se casou na terra, e todas têm sexos apetitosos."

Para as virgens o paraíso islâmico é mais ou menos como uma versão pornô do mito de Prometheus (aquele do titã que tinha seu fígado devorado todos os dias por uma águia), só que é o hímen das jovens donzelas, e não o fígado do titã, que se regenera perpetuamente.

Se você tem uma ereção permanente e o resto da eternidade nas mãos algumas dezenas de virgens não devem bastar, por isso o paraíso islâmico conta ainda com um local que, cá embaixo seria chamado de "bordel", mas que no paraíso islâmico chamam de "mercado". Segundo os hadith, Maomé teria dito:

"Existe no paraíso um mercado onde não há compra ou venda, mas homens e mulheres. Quando um homem deseja uma mulher ele vai até lá e tem relações sexuais com ela."

Al Hadis, Vol. 4, p. 172, No. 34

Os cristãos, a quem devemos a noção agostiniana de que o mundo físico é impuro, gostam muito de apontar o dedo na cara dos muçulmanos e dizer que o paraíso deles é "liberal" demais. Aí, é a vez dos muçulmanos dizerem aos cristãos que se eles querem mesmo falar sobre sacanagem em livros sagrados é bom que se lembrem que têm teto de vidro. É impressionante quanta energia é gasta na internet nesta troca de citações porno-sacras entre cristãos e muçulmanos; eu imagino que jovens beatos de ambas as religiões aprendam bastante sobre estupro, pedofilia e prostituição nestes sites.

Bem, na defesa dos muçulmanos é justo dizer que como os hadith foram escritos muito tempo depois da morte de Maomé, nem todos eles são considerados genuínos pelos estudiosos islâmicos (segundo eles, por exemplo, o trecho acima é falso). Só que mesmo as passagens consideradas verdadeiras podem ser bastante embaraçosas; em algumas delas o constrangimento dos tradutores fez com que a formosura das virgens fosse minguando até que seus detalhes anatômicos desaparecessem por completo. Eis um bom exemplo:

Versão 1 - por Arberry
Para os tementes aguardam um lugar seguro, jardins, vinhedos, donzelas de seios arredondados (maduros) e um copo transbordante de vinho.

Versão 2 - por Yusuf Ali
Para os justos haverá a satisfação dos desejos em seu coração, jardins e vinhedos, companheiras da mesma idade e um copo cheio de vinho.

Versão 3 - por Rashad Khalifa
Os justos merecerão uma recompensa. Jardins e uvas. Esposas magníficas. Drinques deliciosos.

Surah an-Naba' (78:31-34)

Mas existe uma boa chance de que os tradutores islâmicos nunca mais precisem dissimular a exuberância das virgens. Um livro publicado recentemente na Alemanha e muito bem recebido pela comunidade científica, "Die Syro-Aramaische Lesart des Koran" ("Uma Leitura Sírio-Aramaica do Alcorão"), do professor de línguas antigas Christoph Luxenberg, defende a tese de que muita coisa faria mais sentido nos textos sagrados se os tradutores levassem em conta que o Alcorão não foi escrito apenas em árabe, mas num mix de antigos dialetos aramaicos. Por exemplo, a palavra "hur", que em árabe quer dizer "virgem", em sírio significa "branca". Assim, segundo Luxenberg, as "castas huris de olhos castanhos" descritas no Alcorão seriam na verdade "uvas brancas secas" de "clareza cristalina", uma iguaria bastante apreciada naquela época. Dá para imaginar a decepção dos mártires? Deve ser como comprar uma passagem para um cruzeiro de solteiros e ao embarcar descobrir que não vai ter mulher...

No final o problema das virgens vai ser resolvido com a troca de uma única palavrinha. Nenhum candidato a homem-bomba vai ficar mesmo muito entusiasmado em abandonar esta vida quando souber que sua recompensa por morrer abraçado em dinamite será um suprimento vitalício de passas.

Mas é claro que esta não deveria ser a solução. A continuidade da civilização como a conhecemos não deveria depender da tradução de uma palavra num livro sagrado, ou de distinguir o que de fato disse um homem denominado profeta das fantasias eróticas de um bando de velhos babões. Melhor seria se não houvesse pessoas no mundo dispostas a acreditar literalmente em histórias escritas há milhares de anos, numa época em que a maioria das pessoas sabia tanto sobre o mundo natural quanto provavelmente sabe hoje uma criança da sétima série, e tinha os mesmos temores e superstições infantis de uma criança da quinta série.

Fonte:
http://dragaodagaragem.blogspot.com/2008/02/o-problema-das-virgens.html













quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

ALFABETO FONÉTICO INTERNACIONAL

LETRA

CÓDIGO

A

ALFA

B

BRAVO

C

CHARLIE

D

DELTA

E

ECO

F

FOX

G

GOLF

H

HOTEL

I

INDIA

J

JULIET

K

KILO

L

LIMA

M

MIKE

N

NOVEMBER

O

OSCAR

P

PAPA

Q

QUEBEC

R

ROMEU

S

SIERRA

T

TANGO

U

UNIFORM

V

VITOR

W

WISKIE

X

X-RAY

Y

YANKEE

Z

ZULU

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Entrevista de Fernanda Pires da Silva - A Viagem de JK

Roberto Castro



A empresária Fernanda Pires da Silva, que contratou JK durante o exílio, tem grandes projetos no Brasil. Ex-sócia de Roberto Marinho, da Globo, em fazendas de gado nelore, Fernanda sonha em viabilizar no País o maior complexo de ecoturismo do mundo, em parceria com o arquiteto Oscar Niemeyer. A seguir, sua entrevista à DINHEIRO.

DINHEIROPor que Juscelino viajou secretamente para o Rio de Janeiro no dia em que morreu?
FERNANDA – “Ele teria de estar no Rio para discutir com seu advogado sua participação na minha construtora, a Edec. Ele temia ser acusado de ter dinheiro no exterior. Mas garanto que ele nada tinha.”

Juscelino foi seu sócio na construtora?
“A verdade é que, quando se exilou em Paris, ele não tinha dinheiro e precisava trabalhar para viver. Por isso o convidei para trabalhar comigo. Então deixei meu lugar na presidência da Edec para que ele assumisse o posto. A lei também exigia que, para ser administrador da empresa, ele precisava ter ações. Então lhe doei 100 ações, mas nunca foi um sócio efetivo.”

Ele morreu com dívidas pendentes?
“Sim, o salário que ganhava como executivo dava para comer e morar bem, mas não para fazer política no exílio. Foi então que
ele pediu um empréstimo no Banco Português do Atlântico. Recordo-me ainda quando ele tomou empréstimos com o empresário Sebas-
tião Paes de Almeida, seu ex-ministro da Fazenda. Ele foi a Portugal para que Juscelino assinasse os documentos. Lembro-me ter dito: ‘Como é possível um ex-ministro seu emprestar-lhe dinheiro com juros de 8%?’. Ao que ele me respondeu: ‘Só conhecemos os homens quando caímos’.”

Como Juscelino se comportou como empresário?
“Era um homem dinâmico e carismático, que se comunicava com todos, principalmente os mais humildes, fato pouco freqüente
em Portugal. Todos queriam conhecê-lo, desprovidos de hostili-
dade, embora a imprensa na época o incriminasse injustamente
de cometer irregularidades. Mas devo também reconhecer que
ele era uma negação como empresário, tinha dificuldades de negociação de contratos.”

Qual a razão exata dele não ter dado certo como empresário?
“Eu o vi deitar lágrimas quando se sentia isolado, angustiado pelo desejo de voltar ao Brasil. Mais de uma vez isso aconteceu. Também vi Sara e sua filhas sofrerem muito com as acusações de que Juscelino teria enriquecido ilicitamente. Era esse o clima do seu exílio quando um dia ele foi fazer uma conferência em Nova York e de lá me escreveu uma carta particular que dizia: ‘Estou disposto a tudo, mas não posso viver longe do meu País’. Então pediu demissão.”

Fonte: Revista Dinheiro

http://www.terra.com.br/istoedinheiro/336/economia/336_lado%20empresarial_jk_02.htm